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12 de dezembro de 2017

Parto Sem Dizer o Porquê


Já trabalhei com uma cinquentena de obstetras em sala de parto, dos mais variados estilos. Tem o carinhoso, tem o gentil, tem o grosso, tem o calado, tem o que fala demais, tem o que não dá a menor bola para o pediatra, tem o que quer que o pediatra ajude, tem o que comemora meras contrações uterinas, tem desequilibrado que chuta a lâmpada cirúrgica (!), tem o cômico, tem o sério demais, tem o dinheirista, tem o responsável... Como em quase toda profissão.
(E só como um adendo, imagino que para o lado obstétrico, então, deva ocorrer a mesma coisa: vêem de tudo em termos de pediatra).
E, no meio, mães, bebês e suas famílias.
Digo isso para exemplificar as combinações de estilos que as mulheres podem encontrar pela frente ao planejarem ter seus filhos.
Estilos pessoais e profissionais e, principalmente, tipo de parto - vaginal (ou "normal") ou cesariana.
Se você, como paciente, ou nós, como pediatras, tentamos negociar nossas vontades (tipo de parto, mas mesmo outras condutas como momento da interrupção da gravidez, tempo de ligadura do cordão umbilical, etc.) teremos, em situações habituais, muito pouca voz. É o obstetra quem "manda" no ambiente da maternidade.
Um documentário recente do canal franco-alemão Arte denuncia a conduta dos obstetras brasileiros (campeoníssimos mundiais em incidência de cesarianas) no que tange à escolha do parto. Relata a pesquisadora entrevistada que os obstetras "fazem a cabeça" das mães durante todo o período da gravidez, muitas vezes "criando" impedimentos ao parto normal, ao mesmo tempo em que realimentam o natural medo do ato natural. 
As mulheres, até certo ponto (porque podem se educar) inocentes a respeito, se deixam levar pela "conversa", seja por parte dos profissionais, seja por parte das amigas que vivenciaram uma ou outra situação (ou as duas).

Claro que a cesariana é muito bem vinda em muitas situações que poriam em risco mulheres e/ou seus filhos. Mas é um ato que indubitavelmente aumenta certos riscos para mães e, principalmente, para os filhos (o aumento em quase 50% na incidência de diabetes tipo I nos recém-natos é só mais um argumento contra recentemente identificado, citado na reportagem). Não deve e está longe de ser uma unanimidade. Deve ser discutida com clareza e franqueza durante a gravidez, expondo riscos e vantagens.

8 de dezembro de 2017

Triste, Pois Completo

Algumas vezes lemos textos tão a ver com o que pensamos que ao invés de tentar modificá-lo, interpretá-lo (estragá-lo, enfim), o melhor mesmo é colocarmos de cabo a rabo na folha (que é, aliás, de onde vem esse texto, da Folha de São Paulo, da coluna do psicanalista Contardo Calligaris):



"As crianças têm dois deveres. Um, salutar, é o dever de crescer e parar de ser crianças. O outro, mais complicado, é o de ser felizes, ou melhor, de encenar a felicidade para os adultos.
Esses dois deveres são um pouco contraditórios, pois, crescendo e saindo da infância, a gente descobre, por exemplo, que os picolés não são de graça. Portanto, torna-se mais difícil saltitar sorrindo pelos parques à espera de que a máquina fotográfica do papai imortalize o momento. Em suma, se obedeço ao dever de crescer, desobedeço ao dever de ser feliz.
A descoberta dessa contradição pode levar uma criança a desistir de crescer. E pode fazer a tristeza (às vezes o desespero) de outra criança, incomodada pela tarefa de ser, para a família inteira, a representante da felicidade que os adultos perderam (por serem adultos, porque a vida é dura, porque doem as costas, porque o casamento é tenso, porque não sabemos direito o que desejamos).
A ideia da infância como um tempo específico, bem distinto da vida adulta, sem as atrapalhações dos desejos sexuais, sem os apertos da necessidade de ganhar a vida, é recente. Tem pouco mais de 200 anos. Idealizar a infância como tempo feliz é uma peça central do sentimento e da ideologia da modernidade.
É crucial lembrar-se disso na hora em que somos convidados a espreitar índices e sinais de depressão nas nossas crianças.
O convite é irresistível, pois a criança deprimida contraria nossa vontade de vê-la feliz. Um menino ou uma menina tristes nos privam de um espetáculo ao qual achamos que temos direito: o espetáculo da felicidade à qual aspiramos, da qual somos frustrados e que sobra para as crianças como uma tarefa. "Meu filho, minha filha, seja feliz por mim."
É só escutar os adultos falando de suas crianças tristes para constatar que a vida da criança é sistematicamente desconhecida por aqueles que parecem se preocupar com a felicidade do rebento. "Como pode, com tudo que fazemos e fizemos por ela?" ou "Como pode, ele que não tem preocupação nenhuma, ele que é criança?". A criança triste é uma espécie de desertor; abandonou seu lugar na peça da vida dos adultos, tirou sua fantasia de palhaço.
Conselho aos adultos (pais, terapeutas etc.): quando uma criança parece estar deprimida, o mais urgente não é reconhecer os "sinais" de uma doença e inventar jeitos de lhe devolver uma caricatura de sorriso. O mais urgente, para seu bem, é reconhecer que uma criança tem o DIREITO de estar triste, porque ela não é apenas um boneco cuja euforia deve nos consolar das perdas e danos de nossa existência; ela tem vida própria.
Mais uma observação para evitar a precipitação. Aparentemente, nas últimas décadas, a depressão se tornou uma doença muito comum. Será que somos mais tristes que nossos pais e antepassados próximos? Acredito que não. As más línguas dizem que a depressão foi promovida como doença pelas indústrias farmacêuticas, quando encontraram um remédio que podiam comercializar para "curá-la". Mas isso seria o de menos. É mais importante notar que a depressão se tornou uma doença tão relevante (pelo número de doentes e pela gravidade do sofrimento) porque ela é um pecado contra o espírito do tempo. Quem se deprime não pega peixes e ainda menos sobe no bonde andando.
Será que vamos conseguir transformar também a tristeza infantil num pecado?

Claro que sim. Aliás, amanhã, quando seu filho voltar da escola, além de verificar se ele não está com frieiras, veja também se ele não pegou uma deprê. E, se for o caso, dê um castigo, pois, afinal, como é que ele ousa fazer cara feia quando acabamos de lhe comprar um gameboy? Ora! E, se o castigo não bastar, pílulas e terapia nele. Qualquer coisa para evitar de admitir que a infância não é nenhum paraíso."

5 de dezembro de 2017

É Largar ou Largar


Não entendo nada de Previdência.
Mas o que vai ser oferecido aos nossos jovens em termos de trabalho fará terem saudades dos tempos dos faraós.
A proposta é mais ou menos a seguinte:
Trabalhem duro por quarenta anos - ou seja, quase eternamente - sem nenhuma estabilidade. Ao chegarem ao fim do caminho - para os que chegam - terão, se as regras do país não mudarem, garantida uma aposentadoria de pelo menos 20% menos do que ganham no período da "ralação". E isso idosos, não mais saudáveis (a doença mental, por exemplo, bem como o alcoolismo, grassará) com um país que tem tudo para não dar certo na quarentena que virá (apenas que com uma intolerância enorme a qualquer coisa que possa ser chamada "incorreta" nas condutas trabalhistas).
Ficarão quarenta anos a pensar:

"Quais são nossas opções?"

1 de dezembro de 2017

Pérolas... (II)


O argumento que pode ser usado contra a leitura é:
"Se fosse mesmo bom não precisaria estar sendo defendida"
A leitura é mais ou menos comparável ao alimento saudável: aquele que você aprende a comer porque sabe que - se você não o acha muito apetitoso - pelo menos deverá fazer um grande benefício para a sua saúde. E com o tempo aprende a gostar. E rejeitar os alimentos ruins, tornando-se um gourmet, em alguns casos. 
Nada disso se aprende comendo junk food. Por mais gostosa que essa comida possa parecer.
Smarts, "joguinhos", redes sociais são o junk food do cérebro. Nada disso nos põe em contato com a essencialidade da boa comunicação, da elevação de conceitos, da elaboração de conteúdo, da abstração. São hiper-intuitivos e pobres, viciantes e destruidores do cérebro pensante.

28 de novembro de 2017

Segmentos


Ceveja a questão da busca do próprio paciente pelo especialista como funciona:
Tempos atrás a mãe de um paciente tossiu (e tossiu "meio feio") durante uma consulta do filho.
E disse:
"Essa sinusite minha, não melhora nunca!"
Olhei meio assim pra ela e perguntei:
"Sinusite? Essa sua tosse é por causa de uma sinusite?"
"É" respondeu ela, "Já tomei vários antibióticos e não muda nada!".
Não era consulta dela, mas disse:
"Olha, pelo padrão de tosse que você tem, está claro pra mim que isso que você tem não é uma sinusite."
Ela me olha (também meio assim):
"Ah, não? É o que, então?"
"Asma! Só pelo padrão de tosse. Você é fumante?"
"Não!"
"Ainda assim. Essa sua tosse soa como se raspasse seu brônquio. Pelo menos tente uma medicação própria pra isso, inalada"
Dois dias (e muitos antibióticos e raios X depois) mandou um zap. Aliviada, finalmente.

Que especialidade ela consultava? Um otorrino. Alguém que algumas vezes ignora o que acontece da laringe pra baixo.